Entendendo o Transtorno de Conduta: Análise do filme "Ira de um anjo"
- Andressa Carvalho
- 27 de out. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 19 de jul. de 2025

Para simplificar a compreensão sobre o Transtorno de Conduta, proponho uma discussão de caso baseada na história real de Beth Thomas, retratada no filme "A Ira de um Anjo". Essa trama apresenta a vida de uma criança terrivelmente afetada pela violência que sofreu, e como uma intervenção precoce pode ser benéfica para mitigar os impactos psicológicos de um ambiente hostil. Apesar da pouca idade, a menina demonstrava comportamentos violentos que podem indicar um quadro de Transtorno de Conduta, que, sem tratamento, poderia evoluir para um Transtorno de Personalidade Antissocial (mais conhecida como psicopatia). No entanto, é fundamental considerar a história de vida e os acontecimentos traumáticos vivenciados por ela, para além de uma mera psicopatologia.
Sinopse do Filme "A Ira de um Anjo"
O filme retrata a história de Catherine, de 7 anos, e seu irmão mais novo, Eric, que viveram em um ambiente familiar conturbado. A mãe faleceu devido a lesões corporais causadas pelo marido, que sofria de alcoolismo e também abusava sexualmente de Catherine e de sua irmã mais velha, já adolescente. Sem responsáveis e em estado de negligência, as duas crianças foram levadas para um abrigo sob proteção judicial.
Os irmãos foram adotados por um casal, o reverendo Rob e sua esposa Jill, que desconheciam o histórico dos filhos adotivos. Aos poucos, eles começam a notar o comportamento incomum de Catherine e procuram informações com uma profissional envolvida no processo de adoção, que parecia ser uma assistente social do abrigo. A profissional afirma não saber muito, mencionando apenas que encontrou as crianças abandonadas em uma casa suja, com a mãe falecida e o pai as tendo deixado com a irmã mais velha.
Sensibilizadas, a assistente social e Jill buscam a irmã mais velha das crianças para desvendar o passado de Catherine. Descobrem então que a menina, assim como a irmã, havia sido abusada sexualmente.
A assistente social, tocada pela história e desejando ajudar Catherine, recomenda uma renomada psiquiatra ou psicóloga especializada nesse tipo de situação. Na entrevista inicial com a terapeuta, os pais relatam os seguintes comportamentos incomuns de Catherine:
Desenha cenas violentas, como pessoas sendo enforcadas.
Cortou um colega de classe com um vidro por ter sido excluída de uma brincadeira.
Apresenta comportamentos sexuais inadequados para sua idade; por exemplo, sentada no colo do avô, disse que poderia ser sua "garotinha quente" e o tocou na genitália.
Esconde facas da cozinha em seu quarto.
Manipula o irmão e outras pessoas.
Tentou matar o irmão, batendo a cabeça dele no chão.
Matou alguns passarinhos filhotes e enfiou uma agulha no cachorro da família.
Torna-se agressiva toda vez que é contrariada.
Não obedece às regras.
Machuca o irmão mais novo durante a noite, deixando-o com marcas no corpo.
Não sente empatia nem remorso por suas ações.
Tem pesadelos constantes.
A terapeuta explica aos pais que a criança foi rejeitada e, por não ter sido acolhida com amor e carinho, não conseguiu criar vínculos emocionais. Para o tratamento, seria necessário acessar essa dor que a menina possuía, mostrando que agora estava segura e podia contar com o apoio da família. Jill não entende por que Eric, seu irmão, tendo passado pelas mesmas circunstâncias, não apresentava o mesmo comportamento. A terapeuta responde que vários fatores influenciam, e nem todas as crianças reagem da mesma maneira a uma determinada situação. A menina passa pelo tratamento e consegue evoluir, aprendendo a lidar com sua dor, emoções e relacionamentos sociais.
Análise do filme e o Transtorno de Conduta
Catherine demonstra agressão a pessoas e animais, usando objetos que causam danos físicos, e tenta controlar o irmão e outros. Ela inicia brigas físicas quando contrariada e não demonstra culpa ou remorso, nem se importa com as consequências de sua conduta agressiva. Sua insensibilidade e ausência de empatia são evidentes.
Todas essas informações apontam para uma semelhança com os sinais que caracterizam o Transtorno de Conduta. Este é um conjunto de problemas emocionais e comportamentais apresentados por crianças e adolescentes, caracterizado por um padrão repetitivo e persistente de conduta agressiva, desafiadora e antissocial, onde os direitos básicos alheios não são respeitados e regras e normas sociais são violadas. É uma condição mais grave quando comparada ao Transtorno Desafiador Opositivo e é responsável por frequentes encaminhamentos aos serviços de psiquiatria (BORDIN; OFFORD, 2000).
A violação de regras é um componente marcante deste transtorno. Jovens com Transtorno de Conduta apresentam comportamento antissocial com agressão física e crueldade com outras pessoas e animais, sendo muitas vezes autores de bullying no ambiente escolar. Não demonstram sentimento de culpa ou remorso pelos seus atos, são negativistas, desafiadores, hostis e podem realizar atos de vandalismo, furtos e destruição de patrimônio alheio. Roubos frequentes de brinquedos em lojas de departamento ou de objetos pessoais de colegas em sala de aula, além de agressões físicas e intimidações contra colegas, podem ser observados em quadros iniciais do Transtorno de Conduta (BORDIN; OFFORD, 2000).
O Transtorno de Conduta afeta meninos e meninas de maneira diferente. As meninas são menos propensas a ser fisicamente agressivas. Em vez disso, elas geralmente fogem, mentem, abusam de substâncias e, às vezes, se prostituem. Os meninos tendem a brigar, furtar e vandalizar. Ambos os sexos podem apresentar dificuldade de interações sociais, possuindo poucos amigos, baixa tolerância à frustração, irritabilidade e explosões de raiva frequentes. Esses fatores normalmente resultam em comportamentos agressivos e violentos, provocações de brigas corporais em ambiente escolar ou na rua, inclusive com a utilização de armas como faca, bastão ou arma de fogo. Abandono e reprovação escolar, fugas de casa, mentiras, consumo de drogas, comportamento sexual de risco e ausência de arrependimento por seus atos também são frequentes.
A criança com Transtorno de Conduta costuma ter outros transtornos, como depressão, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade ou um distúrbio de aprendizagem. O profissional da saúde mental baseia-se na história de vida, comportamento, convívio familiar, relação com colegas da escola e amigos, e nas percepções e falas da criança e adolescente para realizar uma avaliação clínica mais aprofundada e verificar se mais de uma área da vida é afetada (BORDIN; OFFORD, 2000).
Você deve estar se perguntando: diante de todos esses comportamentos, posso acreditar que essa menina é psicopata? O termo correto seria Transtorno de Personalidade Antissocial em vez de psicopatia. No entanto, neste caso, não se aplica, pois se trata de uma criança que ainda não possui uma personalidade formada, pois está em desenvolvimento. O Transtorno de Personalidade Antissocial está relacionado à personalidade. Portanto, não é definido como Transtorno de Personalidade Antissocial, e sim como Transtorno de Conduta. Caso Catherine persistisse com os comportamentos descritos acima após completar 18 anos, a hipótese diagnóstica de Transtorno de Personalidade Antissocial poderia ser considerada. É importante lembrar que o diagnóstico final requer uma avaliação minuciosa e pode levar um tempo para ser confirmado com confiança (BORDIN; OFFORD, 2000).
O Impacto do Trauma no Desenvolvimento
Além da possibilidade de verificar uma possível hipótese diagnóstica, é necessário considerar o fenômeno em sua amplitude, pois o ser humano é "biopsicossocioespiritual". O contexto em que a menina viveu em seus primeiros anos de vida foi de violência, pois Catherine sofreu violência sexual, provavelmente em conjunto com violência física, psicológica e negligência, visto que a violência na maioria das vezes ocorre em conjunto. Seu comportamento pode ter como causa a falta de afeto e segurança de seus cuidadores, o que a impediu de criar vínculos e confiar nas pessoas. Suas ações violentas podem ser um modo inconsciente de replicar no outro o que recebeu, para que sintam o que ela sentiu. Por ter vivido uma grande dor emocional, pode ter desenvolvido uma insensibilidade diante de suas emoções para evitar senti-las, e como não recebeu demonstrações de carinho, é compreensível que não soubesse demonstrar. Em seu atendimento gravado antes e depois do tratamento, Beth — que viveu essa história e foi interpretada no filme como Catherine — afirma, após o tratamento, que desejava que os outros sentissem o sofrimento pelo qual viveu.
Referências
American Psychiatric Association (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
BORDIN, Isabel AS; OFFORD, David R. Transtorno da conduta e comportamento anti-social. Brazilian Journal of Psychiatry, v. 22, p. 12-15, 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbp/a/6KyCKnGj4bHv7qBzXbqWzzK/?lang=pt
Ira de um Anjo (Título original: Child of Rage). Documentário.
Ira de um Anjo (Título original: Child of Rage). Dirigido por Larry Peerce, Roteiro Phil Penningroth e Suzette Couture, Produtor David A. Shepherd, 1992.




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